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Tornar-se humano

In: COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Editora Moderna, 2005. p.12-14.

Lendas e mitos relatam histórias de heróis que, mesmo crescendo no isolamento, tornam-se humanos – Rômulo e Remo, Tarzan, Mogli -, apresentando comportamentos compatíveis com os demais seres humanos. Entretanto, para se tornar humano, o homem tem de aprender com seus semelhantes uma série de atitudes que jamais poderia desenvolver no isolamento. Já entre as outras espécies de animais, uma cria, mesmo separada do seu grupo de origem, apresentará, com o tempo, as mesmas atitudes de seus semelhantes, na medida em que estas decorrem, sobretudo, de sua bagagem genética e se desenvolvem de forma espontânea.

O cienasta alemão Werner Herzog trata justamente desse tema em seu filme O enigma de Kaspar Hauser, de 1974. Baseado no livro do austríaco Jacob Wassermann, ele mostra como um homem criado longe de outros seres de sua espécie é incapaz de se humanizar, não conseguindo desenvolver aptidões e reações que lhe dê identidade e possibilidade de interagir satisfatoriamente com seus semelhantes.

Portanto, para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente dito, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, em que as gerações mais velhas transmitem às mais novas suas experiências e conhecimentos. Essa característica da humanidade dependeu, entretanto, da nossa capacidade de criar símbolos que constituem as linguagens, por meio das quais somos capazes de nos comunicar, transmitindo aos outros o legado de nossa experiência de vida, compartilhando os sentidos que a ela atribuímos.

Dessa forma, o homem, transmite suas experiências e visões de mundo utilizando a comunicação, estabelecendo-se uma íntima identidade entre linguagem, experiência e realidade, que é a base do imaginário e do conhecimento humano.

Comparado aos outros animais, o homem não vive apenas em uma realidade mais ampla, vive, pode-se dizer, em uma nova dimensão da realidade… o homem vive em um universo simbólico. (CASSIRE, Ernst. Ensaios sobre o homem: introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p.48)

Por isso, dizemos que o pensamento humano é único, pois demonstrou ser capaz de transformar a experiência vivida em um discurso com significado e de assim transmiti-la aos demais seres de sua espécie e seus descendentes. Até onde sabemos, ele é o único a conceber acontecimentos, ações e reações sob forma de imagem, que, mesmo na ausência daquilo que lhe deu origem, é capaz de provocar sentimentos e de se fazer conhecer pela reflexão. Por meio do pensamento, o homem pode reviver as situações que o estimularam e que foram arquivadas na memória. Além disso, é o pensamento humano que possibilita ao homem diferenciar as experiências no tempo e, em consequência, a distinguir o passado do presente e a projetar as ações futuras.

O homem, portanto, é capaz de abstrair situações e emoções e de transformá-las em imagem, é capaz de simbolizar, de armazenar significados, de separar, agrupar, classificar o mundo que o cerca segundo determinadas características. Dessa habilidade provém a capacidade de projeção, a ideia de tempo e o esforço em preparar o futuro, características que permitem o desenvolvimento da ciência. Esse é o centro de sua capacidade simbólica e de sua humanidade.

Ao pensar, ao ser capaz de projetar, ordenar, prever e interpretar, o homem, sempre vivendo em grupos, começou a travar com o mundo ao seu redor uma relação dotada de significado e sentido. O conhecimento do mundo – organizado, comunicado e compartilhado com seus semelhantes e transmitido à descendência – transformou-se em um legado cumulativo fundamental para interpretar a realidade e agir sobre ela, ou seja, deu origem à cultura humana. Essa elaboração simbólica da experiência fez com que os homens recriassem a realidade segundo suas necessidades e pontos de vista, traduzindo-a sob a forma de informação ou conhecimento.

Essa criação simbólica que organiza o mundo e lhe atribui sentido é marcada pelo espaço e tempo que a produz e pelos grupos com os quais dividimos nossas experiências, gerando uma multiplicidade ilimitada de interpretações da realidade que nos cerca. É por isso que encontramos padrões de vida, de crenças e de pensamento tão diversos. Porque esses padrões não são apenas consequências de uma estrutura genética da espécie, mas do compartilhamento de experiência simbólicas por determinado grupo humano.

Uma vez que cada cultura tem raízes, significados e características próprias, todas elas revelam, como processos cognitivos, a mesma complexidade. Como culturas, todas são igualmente simbólicas, frutos da capacidade criadora do homem e adaptações de uma vida comum situada em tempo e espaço determinados. Resultam de um incessante recriar, compartilhar e transmitir da experiência vivida e aprendida.

Sobre Priscila Cardoso

Maria Priscila (SIM! Também sou Maria). Capricorniana com ascendente em virgem = duplamente crítica, chata, perfeccionista.... Sou blogueira viciada em séries, filmes, tecnologias, redes sociais e nas horas vagas sou professora de Sociologia.