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Estranhamento e desnaturalização

Por Priscila Cardoso

Nossa consciência normalmente está repleta de prenoções sobre a realidade proveniente do senso comum. O conhecimento de senso comum é importante, no entanto, não é o único conhecimento existente.

Uma das características do senso comum é o imediatismo e superficialidade porque se conforma com as aparências. Ele é acrítico, porque não questiona o que vê, atravessado pelos sentimentos e preconceitos.

O afastamento do senso comum é o pensar sociologicamente, para o qual são necessários os processos de estranhamento e desnaturalização dos fenômenos sociais, princípios de ensino de Sociologia que podem ser aplicados em sala de aula.

Berger (1980) afirma que a perspectiva sociológica pode ser entendida como “olhar por trás dos bastidores” (p. 40), propondo enxergar além das fachadas das estruturas sociais. O estranhamento é o primeiro passo para essa perspectiva.

Segundo Moraes e Guimarães (2010) “estranhamento é o ato de estranhar no sentido de admiração, de espanto diante de algo que não se conhece ou não se espera” (p. 46), ou seja, estranhamento é não achar normal, espantar-se, incomodar-se com algo ou alguém.

A seguir, a reprodução do fragmento do poema de Otto Lara Rezende, intitulado “Vista Cansada”, que nos leva a refletir sobre como o estranhamento pode ser inserido no nosso olhar cotidiano.

”… De tanto ver, a gente banaliza o olhar… Vê não – vendo…

Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver…

Parece fácil, mas não é…

O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade…

O campo visual da nossa rotina é como um vazio… Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta…

Se alguém lhe perguntar o que você vê no seu caminho, você não sabe…

De tanto ver, você não vê…

(…) O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem…

Mas há sempre o que ver… Gente, coisas, bichos… E vemos? Não, não vemos…

Uma criança vê o que um adulto não vê… Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo… O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê…

Há pai que nunca viu o próprio filho… Marido que nunca viu a própria mulher (e desconhece os seus segredos e desejos), isso existe às pampas…

Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos… É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença…” (REZENDE, 1992).

O poema nos leva a refletir sobre o que vemos e o que não enxergamos em nosso cotidiano, aspectos que “em primeiro momento, possam nos parecer tão familiares e, por isso, tão triviais, a ponto de sentirmo-nos dispensados de problematizá-los” (OLIVEIRA, 2006, p. 18).

Diante do conhecido como óbvio, familiar e natural, o estranhamento desperta a vontade de saber.

Concordamos com Gilberto Velho (1978) em “o que sempre vemos e encontramos pode  ser  familiar,  mas  não  é  necessariamente conhecido,  e  o  que  não  vemos  e  encontramos  pode  ser  exótico  mas,  até  certo ponto,  conhecido” (p. 39). Isto é, nem sempre a familiaridade é conhecimento. Na rua, é possível observar a senhora que vai sempre à padaria, o senhor que passeia sempre com o cachorro, o encontro rotineiro com aquele rapaz no ponto de ônibus, as senhoras que conversam no portão, pode-se dizer que há certa familiaridade com estas pessoas que fazem parte do cotidiano, estamos habituados com a presença delas, mas, desconhecemos seus hábitos, suas vidas, crenças e valores. Com isso, causa-se estranheza no fato de não reconhecê-las. No campo em que atuamos – a docência -, o professor, por estar diariamente com seus alunos, pode ter certa familiaridade, no entanto, não os conhece.

Bauman (2001) afirma que o sociólogo possui o olhar de estrangeiro, isto é, um olhar de fora e de dentro, de modo que enxergue além do óbvio, do evidente. Pode-se supor que o aluno poderá observar sua realidade como se fosse um estrangeiro, com certo distanciamento para a compreensão dos fenômenos sociais.

Em outras palavras, o estranhamento coloca em questão as situações vividas diariamente e tidas como esperadas, assumindo-se uma postura investigativa. O estranhamento proporciona ao indivíduo uma inquietação indagadora, possibilitando sensibilidade para compreensão de outras formas de representar, definir, classificar e organizar a realidade e o cotidiano. O indivíduo pode analisar a sua época e sua vida sob uma nova perspectiva.

A partir do momento em que se estranha um evento do cotidiano, inicia-se também o processo de desnaturalização.

Na prática da vida cotidiana e sua aparente naturalidade, é comum ouvirmos a expressão “isso é natural”. Isso nos leva à ideia de que os fenômenos sociais são imutáveis no tempo e no espaço, e que não são historicamente construídos. É necessário aprender a olhar as coisas que se apresentam como corriqueiras e normais. Já a desnaturalização é a compreensão de que os fenômenos sociais não são de origem natural.

Desnaturalização é aprender que a realidade cotidiana resulta da ação humana e pode ser modificada pelo homem. É por meio da desnaturalização e do distanciamento que desconstruímos aquilo que nos é apresentado muitas vezes pelo senso comum. Segundo as OCNs:

Há uma tendência sempre recorrente a se explicarem as relações sociais, as instituições, os modos de vida, as ações humanas, coletivas ou individuais, a estrutura social, a organização política, etc. com argumentos naturalizadores. Primeiro, perde-se de vista a historicidade desses fenômenos, isto é, que nem sempre foram assim; segundo, que certas mudanças ou continuidades históricas decorrem de decisões, e essas, de interesses, ou seja, de razões objetivas e humanas, não sendo fruto de tendências naturais (BRASIL, 2006, p. 105).

Por um lado, o estranhamento e a desnaturalização podem causar um choque ao indivíduo, cujas categorias, pensamentos, percepções, visões de mundo, crenças podem ser abalados, produzindo um desconforto; por outro, o desconforto dará espaço a novas percepções.

É necessário libertar-se do comodismo, construir, desconstruir e reconstruir, valorizando nossas experiências e reflexões, pois prática e teoria possuem a mesma importância, estão entrelaçadas na vida e na formação de professores e alunos.

Percebemos que os processos de estranhamento e desnaturalização contribuem para um pensamento sociológico do aluno. Cabe investigar se esses processos são realizados em sala de aula e de que maneira são feitos.

Sobre Priscila Cardoso

Maria Priscila (SIM! Também sou Maria). Capricorniana com ascendente em virgem = duplamente crítica, chata, perfeccionista.... Sou blogueira viciada em séries, filmes, tecnologias, redes sociais e nas horas vagas sou professora de Sociologia.

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