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A importância e a finalidade da Sociologia como disciplina

Por Priscila Cardoso

Não há um consenso sobre Sociologia como disciplina nos currículos. Na mídia, podemos observar algumas manifestações contrárias ao ensino de Sociologia; a revista Veja, por exemplo, nos últimos anos, não hesitou em criticar a obrigatoriedade das disciplinas de Filosofia e Sociologia.

Márcio da Costa, professor associado da UFRJ, é um dos opositores à obrigatoriedade da Sociologia no currículo. Em uma entrevista à Revista Habitus, diz temer que a disciplina seja um “pastiche doutrinário” ou “pretensamente revolucionário”:

Penso a introdução da sociologia como disciplina obrigatória como resultante, esquematicamente, de três vetores: 1) a ignorância sobre o que é a sociologia e consequente esperança de que ela cumpra papel “civilizatório”, uma espécie de manual de boas maneiras cívicas; 2) a aparentemente libertária vertente gramsciana, que pretende fazer da sociologia mais um espaço institucional de propaganda e proselitismo político e; 3) a busca de criação de uma reserva de mercado para licenciados em ciências sociais, um curso superior relativamente fácil de entrar, igualmente fácil de sair, mas com forte imprecisão quanto aos destinos profissionais de seus egressos (COSTA, 2009).

Entretanto, existe um movimento significativo a favor da disciplina, movimento este que define a Sociologia como uma das responsáveis por contribuir com a autonomia de reflexão do indivíduo. Além de documentos legais, há uma série de autores que refletiram sobre o sentido da Sociologia, e sua leitura pode nos ajudar na compreensão do porquê Sociologia no nível médio.

Para Florestan Fernandes (1976), uma das funções das ciências sociais no mundo moderno é contribuir de maneira significativa na preparação do homem para seguir com suas escolhas, saber interpretar as intenções dos meios de comunicação, movimentos sociais, ou seja, “quem é capaz de discernir os fins reais de um movimento social, também está moralmente capacitado para uma escolha consciente, em função dos próprios interesses” (p. 300).

Wright Mills (2009) propõe ao indivíduo a imaginação sociológica, isto é, uma compreensão da realidade de modo que passe a obter consciência de si: “o indivíduo só pode compreender sua própria experiência e avaliar seu próprio destino situando-se dentro do seu período” (p. 84). Em outras palavras, Mills propõe ao indivíduo, entender sua biografia dentro de um processo histórico.

Conforme Tomazi (2008), no ensino médio, o objetivo não é formar mini sociólogos, e sim oferecer aos jovens todas as ferramentas para que possam pensar sociologicamente, transformando suas visões para além do senso comum.

Dentre as finalidades para o ensino médio fixadas pelo artigo 35 da LDB, “a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico” (BRASIL, 1996) podem ser associados diretamente ao ensino de Sociologia.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais propõem ao educando, por meio do conhecimento sociológico sistematizado, a construção de uma postura mais reflexiva e crítica diante da realidade contemporânea. O educando, “ao mesmo tempo em que realiza um esforço para entender a realidade social, também subsidia outros agentes sociais na solução dos problemas” (BRASIL, 1999).

A Proposta Curricular do Estado de São Paulo para a disciplina de Sociologia “pressupõe a compreensão da educação como um caminho para conhecer, para saber, no sentido de superar os preconceitos, as ideologias, o senso  comum” (SÃO PAULO, 2008).  

Segundo as Orientações Curriculares Nacionais (BRASIL, 2006), o que se espera da disciplina é ir além do clichê “formar cidadão crítico” e concretizar as expectativas, isto é, não ficar apenas no discurso, mas formar o indivíduo efetivamente, de modo que o mesmo possa ser sujeito de si, capaz de construir e desconstruir argumentos (p.105).

Percebemos a importância da Sociologia nos currículos, pois vivemos numa sociedade capitalista em que a formação do indivíduo está voltada para o trabalho. Com isso, valoriza-se o pensamento superficial, reprodutor dos discursos manipuladores voltados aos interesses do mercado. Em contrapartida, a Sociologia pode contribuir com um olhar sociológico, de modo que o educando seja capaz de enxergar para além do senso comum, possibilitando a autonomia de reflexão.

Sobre Priscila Cardoso

Maria Priscila (SIM! Também sou Maria). Capricorniana com ascendente em virgem = duplamente crítica, chata, perfeccionista.... Sou blogueira viciada em séries, filmes, tecnologias, redes sociais e nas horas vagas sou professora de Sociologia.

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